Policiais aprendem a usar insetos para fazer investigações

Mais do que meros elementos figurativos numa cena de crime, os insetos podem ser fundamentais para a elucidação de complexas investigações. É com esse propósito que policiais civis das sete delegacias seccionais subordinadas ao Departamento de Polícia Judiciária do Interior (Deinter) 4 de Bauru participam, desde ontem, de um curso que os capacitará em utilizar esses organismos como peças de investigação.

O curso, ministrado por peritos criminais da Academia de Polícia, ocorre no próprio Deinter, no Núcleo de Ensino da Polícia Civil, sob coordenação do delegado Luís Henrique Fernandes Casarini. Bauru, destaca o policial, é a primeira cidade no Interior do País a abrigar o curso, aplicado, então, apenas em São Paulo. A próxima localidade a acomodar as aulas é Campinas.

Denominado “Entomologia Forense”, o curso, de acordo com peritos, visa aproximar conhecimentos acadêmicos com a praticidade do meio policial. “É uma área nova”, reconhece o delegado Licurgo Costa, chefe do Deinter, ao destacar que as técnicas são ideais para policiais que atuam, principalmente, em casos de homicídio.

“Fizemos questão da participação destes policiais, em virtude do tirocínio que já possuem”, destaca. Participam das aulas representantes das seccionais de Assis, Bauru, Jaú, Lins, Marília, Ourinhos e Tupã.

As técnicas transmitidas no curso, frisa o delegado Casarini, não dispensarão o trabalho dos peritos, mas serão importante instrumento para o andamento de investigações, ressalva : “O objetivo é agregar conhecimento, aumentando ainda mais a capacidade de investigação do policial”, pontua.

Com uma carga de oito horas/aula, o curso é aplicado a 40 policiais com duas turmas de 20, cada uma com atividades em três dias. Nesta semana, a primeira turma teve ontem suas primeiras atividades teóricas, ministradas pelos peritos Edilson Nakaza e Claudemir Rodrigues Dias Filho.

Insetos ‘falam’

Basicamente tida como a ciência que estuda os insetos, a entomologia, enfatiza Dias Filho, durante muitos anos esteve afastada das investigações policiais, restrita apenas a estudos no meio acadêmico. Apesar de ser uma novidade no meio policial brasileiro, as técnicas têm registros, até mesmo seculares, na Europa, Estados Unidos e Ásia.

“Um Juiz de Instrução (espécie de mescla entre magistrado e investigador) chamado Sun Tzu (homônimo ao autor de ‘A Arte da Guerra’), na China, investigava um assassinato cometido numa plantação de arroz. Sem saber quem era o autor, recolheu todas as foices dos camponeses e as expôs ao ar livre. Vestígios invisíveis de sangue que estavam no instrumento usado no crime atraíram moscas. Com isso, o autor foi identificado”, exemplifica.

“Buscamos maior aproximação dos meios acadêmico e policial”, sintetiza o perito criminal Edilson Nakaza. Larvas e insetos também contribuem na elucidação de outros crimes, como tráfico de drogas. “Tijolos de maconha contêm pedaços de solo e insetos que ocorrem apenas em determinadas regiões. Com base nesses vestígios é possível saber a origem da droga”, exemplifica.

Na prática

Além das aulas teóricas, os policiais, cuja primeira turma é capacitada até amanhã, com a segunda turma de participantes com atividades marcadas para a semana que vem, também integrarão iniciativas práticas ministradas por Patrícia Thyssen, professora da Unicamp considerada uma das maiores autoridades em entomologia forense no País. Na ocasião, os alunos observarão “modelos” animais, com carcaças expostas ao ambiente e respectivas colonizações de insetos.

“A idade da larva nos determina a estimativa de IPM (Intervalo Pós Morte)”, detalha o perito Dias Filho, relacionando características dos parasitas encontrados nos corpos em decomposição diretamente ao tempo de morte para, conseqüentemente, chegar a conclusões de crimes.

Para o delegado Casarini, não há empecilho para que os conhecimentos adquiridos no curso sejam colocados em prática imediatamente: “Visamos o aumento nos índices de elucidação”, acentua. O curso é promovido e custeado por meio de parceria entre Programa Nacional de Segurança Cidadã (Pronasci), da Secretaria Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça, e Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo, através da Academia de Polícia.

Original em: http://www.jcnet.com.br

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