Pesquisa brasileira feita com ratos mostra que as larvas de mosca varejeira podem ser usadas com sucesso na cicatrização de ferimentos graves. Intenção da coordenadora do estudo é começar a testar a técnica em humanos no próximo ano

O uso de larvas de moscas varejeiras no tratamento de ferimentos necrosados pode se tornar, no futuro, uma prática médica comum no Brasil. É esse, pelo menos, o caminho apontado por uma pesquisa desenvolvida na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp).
A técnica, testada recentemente em ratos, poderá ser aplicada em humanos dentro de um ano. O objetivo é amenizar o sofrimento de pacientes que apresentam feridas graves, em que parte do tecido morre, o que é comum em pacientes com o diabetes fora de controle.
O procedimento mostra-se promissor. De acordo com o estudo, as larvas se alimentam do tecido em fase de decomposição sem atacar a parte saudável. Nos testes de laboratório com as cobaias, o uso das larvas diminuiu o tempo médio de cicatrização de 35 para 10 dias. Também estudada em outros países, como os Estados Unidos, a terapia larval ainda é inédita no Brasil, ao contrário da entomologia forense — ciência que busca explicar a causa da morte a partir da análise da fauna cadavérica (que inclui as larvas de moscas).
De acordo com a autora da pesquisa da Unesp, a enfermeira Maria José Trevizani, antes que as larvas entrem em contato com a pele das cobaias, é necessário tomar uma série de cuidados. Uma das medidas tomadas é a esterilização dos ovos, para que nenhuma contaminação externa entre em contato com as feridas (veja arte). Para isso, são usados produtos como o hipoclorito de sódio e equipamentos como a capela de fluxo laminar — equipamento que cria ambientes limpos em pequenas áreas de trabalho.
As espécies de moscas escolhidas para a pesquisa foram a Chrysomya megacephala (Fabricius) e a Chrysomya putoria (Wiedemann), facilmente encontradas na região de Botucatu (SP). Os ratos que receberam o tratamento apresentaram uma melhora visível do estado de saúde. “Já aqueles que não foram tratados continuaram bastante debilitados. Além disso, tiveram perda de peso e piora das condições das feridas”, destaca Maria José.
Segundo a enfermeira, o processo ocorrido no organismo dos animais que se submeteram ao tratamento é uma reorganização celular. “O organismo dos ratos conseguiu responder satisfatoriamente, ocorrendo a evolução, a cicatrização e o fechamento (do ferimento) como esperado”, descreve a pesquisadora.
Durante sua tese de doutorado, Maria José contou com o trabalho do Laboratório de Pesquisa Experimental da Faculdade de Medicina da Unesp de Botucatu, para testar a técnica nas cobaias. Já a criação das moscas e larvas em ambiente, temperatura, umidade e claridade controlados ficou sob a responsabilidade do Laboratório de Ecologia Populacional, localizado na mesma cidade.
Custos
O fato de utilizar soluções de custo baixo para a esterilização das moscas acaba tornando a técnica mais acessível do que as convencionais, que chegam a envolver cirurgias nos casos mais graves. No momento, segundo a pesquisadora, o trabalho proposto aguarda autorização para testes em humanos. “Para isso, é necessária a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos e do Conselho Nacional de Saúde (Conep)”, informa a cientista.
De acordo com o professor titular José Roberto Pujol, responsável pelo Núcleo de Entomologia Urbana e Forense da Universidade de Brasília (UnB), as espécies escolhidas pela pesquisa são nativas da África. “Elas invadiram o meio urbano e acabaram expulsando as moscas nativas para o interior”, explica. Ele acredita que a terapia larval tenha surgido em meados de 1861, na época da Guerra Civil dos Estados Unidos. “Relatos da história mostram que os amputados com bicheiras viviam mais tempo por conta das larvas que se alimentavam dos tecidos necrosados”, explica.
O biólogo diz que a Colômbia é o país da América do Sul que mais se destaca em pesquisas voltadas para a terapia larval. “Acompanhei de perto o trabalho feito na Colômbia. Laboratórios ingleses também prepararam larvas para esse fim. No exterior, a técnica já é testada em humanos há algum tempo e bastante usada no tratamento de queimaduras”, conta. Pujol também reforça a questão da esterilização adequada antes do uso das larvas. “Além disso, elas precisam ser bem alimentadas. Ao meu ver, a segunda geração de cepas já pode ser trabalhada com segurança”, opina.
Original em: http://www.correiobraziliense.com.br
