A família de Luis Carlos de Lima, 57 anos, que morreu em razão de um infarto no Hospital Ipiranga, na sexta-feira da semana passada, ficou frustrada depois de tentar, em vôo, doar as córneas dele. Os parentes insistiram em oferecer os órgãos das 17h40, horário da morte, até as 23 horas, limite de tempo para que a doação pudesse ser consolidada.
“O hospital não sabia dar informações sobre os procedimentos necessários. Procuramos informações com amigos. Primeiro ligamos para o Banco de Olhos de São Paulo. Depois, com um parente meu, consegui ligar para o Banco de Mogi. Lá, nos informaram que seria necessário o laudo do IML ou o atestado de óbito do médico. Ele [o morto] sofria de hipertensão e diabetes e estava passando por tratamento. Como o médico dele estava fora da Cidade, o corpo acabou indo para o IML”, conta José Carlos Nunes Junior, 43 anos, auditor financeiro, que é casado com a sobrinha do homem falecido.
Segundo Nunes Junior, a mulher de Lima ficou frustrada por não conseguir efetivar a doação. “Ela ficou bem chateada. Estava abalada e queria o consolo de ajudar a quem precisa”, contou.
Por meio da Assessoria de Imprensa, o hospital Ipiranga informou que Lima chegou morto à unidade, o que obriga, por força de lei, o centro médico a encaminhar o corpo para o IML. “Mas o IML estava fechado. O corpo saiu do Ipiranga às 20h30 e só deu entrada no IML às 23 horas. Um absurdo”, disse Nunes Junior.
Já o médico chefe do Núcleo de Perícias Médico Legais, Zeno Morre Junior, afirma que “sempre tem gente na unidade”. “O que pode ter acontecido é o auxiliar técnico ter saído para jantar. Mas, nestes casos, ele não demora mais de uma hora e meia. Além disso, no geral, as captações são feitas nos hospitais. Em anos de atuação no IML, só lembro de um caso em que os órgãos foram retirados aqui”, explicou.
Assim que o Banco de Olhos é acionado, é feita uma seleção de informações para saber se a doação pode realmente ser efetivada, como explica o presidente do Banco de Olhos de Mogi das Cruzes, Mario Julio de Souza. “Não podemos fazer o procedimento sem saber algumas informações sobre o candidato a doador. A família pode ligar no nosso telefone, que fica disponível por 24 horas”, explica.
Se as córneas se encaixam no perfil de um transplante, um técnico do Banco de Olhos vai ao local onde está o cadáver para realizar a remoção. “Apesar de ser um procedimento cirúrgico, leva apenas 22 minutos”.
O presidente do Banco de Olhos critica a falta de colaboração dos hospitais.
“A doação é simples e tranquila. Mas os hospitais, principalmente os particulares, não tem interesse em nos ajudar, não querem ser incomodados. Especificamente neste caso, ligamos para o Ipiranga em busca de informações, mas o corpo já havia sido encaminhado ao IML. Até a elaboração de um laudo com a causa da morte, não podemos fazer a coleta dos órgãos. Como temos apenas seis horas após a morte para a captação, a transferência [do corpo] acabou nos prejudicando”, lamenta.
Souza acredita que o IML também foi omisso. “O IML deveria estar aberto. Falta vontade”, diz.
Como o falecido foi vítima de infarto, era um potencial doador. “Nesta situação, de um infarto, é bem provável que as córneas pudessem ser aproveitadas, o que é lastimável”.
Ainda de acordo com Souza, a falta de colaboração dos hospitais vai mais longe. “Um paciente morre numa UTI e fica com os olhos abertos. Com o ar-condicionado, as córneas, que são pequenas bolsas de água, acabam ressecando. Poderiam ser colocados soros e gazes sobre os olhos. Nem isso costuma ser feito. O que custaria para eles?”, questiona.
O presidente do Banco de Olhos acredita que falta um atendimento mais “humanizado” para ajudar as famílias com intenção de doar órgãos. “Os hospitais deveriam ajudar os parentes até por uma questão de respeito a quem, num momento de dor, ainda pensa em ser solidário”, critica.
É possível obter informações sobre as doações de córneas no ao endereço eletrônico da unidade: www.bomc.org.br.
Original em: http://www.odiariodemogi.inf.br
