GM conhecia defeito do Vectra antes das explosões, mas não fez recall

A Associação Brasileira de Consumidores Automotivos (ABCAuto) teve acesso a um documento de circulação interna da General Motors Brasil (GMB) sobre as explosões de Vectras, que ocasionaram a morte de 24 pessoas de 1999, sendo sete delas de Mato Grosso. Com este documento, o assessor jurídico da ABCAuto, advogado André Paiva Pinto, espera enfim obrigar a GM a realizar um recall nessa linha de veículos.

De acordo com o advogado, a montadora se omitiu ao conhecer a causa das explosões, tendo tido a possibilidade de evitar todas as mortes. “E o pior, eles (GM) ainda se negam a admitir o erro”, bradou o jurista, durante coletiva à imprensa nesta segunda-feira (15). “Queremos que a General Motors realize um recall, para corrigir o problema com o Vectra e poupe a vida de mais consumidores”.

Outro motivo de revolta ao advogado é que a mesma GM já realizou recall de mais de 1,5 milhão de veículos no Canadá por apresentarem baixo risco de incêndio, além de, em outra ocasião, realizar o mesmo procedimento na Austrália. “Queremos saber por que eles nos desrespeitam, esquecem os consumidores brasileiros, mas fazem certo lá fora”.

O Boletim e as medidas

O documento trata-se de um boletim de informação técnica datado de fevereiro de 1998, o qual fala sobre um problema no chicote da bomba de combustível do Vectra. A peça, em decorrência do comprimento dos cabos e do balanço do comburente, pode tocar os terminais elétricos, provocando o derretimento da proteção e, consequentemente, falha.

De acordo com o boletim, a recomendação era que caso os veículos Vectra, anteriores a série WWB539252, dessem entrada na concessionária ou oficina autorizada com problema de queima de fusível da bomba de combustível, o chicote deveria ser verificado.

Os modelos posteriores ao citado passaram a ser produzidos com o chicote preso por uma presilha plástica. A intenção da alteração é evitar o contato dos cabos com os terminais elétricos da bomba de combustível. “É absurdo que um veículo tenha problemas de curto circuito dentro do tanque de combustível”, disse o assessor jurídico da ABCauto.

O boletim foi conseguido junto ao Ministério Público de São Paulo, que o possui em decorrência das ações movidas contra a montadora. Inclusive, André questiona porque o MP não solicitou um recall da GM. “Eles terão de se explicar”.

Segundo André, o boletim é a prova judicial da omissão da General Motors, a qual detinha o conhecimento do problema e nada fez para evitar a morte dos consumidores. “E até hoje a GM se nega a dar explicações, negam os fatos, além de terem omitido esse fato (o boletim)”, acusou Paiva Pinto.

Atualmente, esse documento está em mãos do presidente do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), Alfredo Peres, que estuda o caso par avaliar as medidas administrativas passíveis de serem tomadas. Um relatório de todos os acidentes e vítimas reunidos pela associação foi entregue a cada deputado federal membro da comissão permanente de defesa ao consumidor.

André também aconselha a cada pessoa lesada pela montadora a acionar a justiça em busca de uma indenização. O próprio advoga em favor da família das primeiras vítimas fatais das explosões de Vectra em Mato Grosso, a qual, mais tarde, viria a fundar a ABCauto.

Os casos de MT

No fatídico dia de 17 de agosto de 1999, Heronides Araújo, 89, sua esposa, Ítala Pedemonte Araújo,86, seu filho Antônio Salvino Pedemonte Araújo, 49, e sua enfermeira Maria Dometilda Pinto Gusmão, sem idade divulgada, voltavam para Barra do Garças (509 quilômetros de Cuiabá), depois de visitar o filho Heronides Araújo Fillho, 70. A comitiva jamais chegou ao destino.

Na BR 070, próximo ao município de General Carneiro, o Vectra JYY 1481, modelo 1998-1999, com sete meses de uso, utilizado para o retorno a cidade onde residiam, explodiu e matou todos os ocupantes do carro. Antonio e Ítala ainda conseguiram saltar do automóvel, porém com o corpo envolvido em chamas, morreram em meio à pista.

A enfermeira, pela forma na qual o corpo foi encontrado, parece ter tentado fazer o mesmo, mas sem sucesso, veio a óbito dentro do veículo. Apenas Heronides Araújo morreu aparentemente sem reação, provavelmente pela falta de forças ocasionada pela idade e falta de saúde.

Heronides Filho conta ter ficado espantado com o acidente e queria saber o motivo da explosão. Segundo ele, a GM “sumiu com o carro, após levá-lo para o pátio da montadora em Barra do Garças”, e alegou que a explosão foi causada por uma peça de caminhão perdida no meio da estrada. Isso, no entanto, foi desmentido pela pericia criminal, a qual, por diversos motivos, descartou essa hipótese por completo.

Baseado nisso, o Tribunal de Justiça de Mato Grosso condenou a empresa a pagar uma indenização de R$ 200 mil a cada autor do processo contra a montadora – 12 no total. No entanto, o recall, após recurso, não foi decretado. “Fica a sensação de impunidade. Os grandes grupos vêm e fazem o que querem e ficamos impotentes”, disse Heronides Filho. “Queremos um recall. É para evitar que outros percam a família dessa forma estúpida, todos carbonizados”, lamentou.

Outro caso, desta vez em Poconé (104 quilômetros de Cuiabá), resultou na morte de três pessoas. Na ocasião o modelo que explodiu era de 1997, porém André Paiva Pinto garante: “Os novos também pegam fogo. Em Jauru, um Vectra hatch do ex-verador Antonio Boro também pegou fogo”.

Original em: http://www.olhardireto.com.br

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