Medicina legal está sucateada em Alagoas

Diante do caos imediato, o diretor do IML defende a importância da medicina legal “como ciência e arte” para elucidar crimes

A perícia criminal nunca esteve tão em evidência na mídia. Seja em crimes de repercussão, como nos casos Mércia Nakashima, Eliza Samudio e Isabella Nardoni, ou em seriados de TV e filmes policiais. Apesar de a medicina legal despertar certa repulsa, não deixa de ser tema palpitante e instiga debates entre cidadãos comuns que se imaginam “experts”. Mas existe um abismo de diferenças entre os roteiros mirabolantes, as superproduções da ficção e a vida real. Quando se trata do Instituto Médico Legal (IML) de Maceió então, a comparação seria um ultraje.

Após a necropsia, corpos são largados no chão, nus, por não haver espaço onde colocá-los. Agentes funerários lavam cadáveres a céu aberto, numa rampa aos fundos do IML, visível para vizinhos. A água podre forma poças. A câmara frigorífica é velha, tem até uma porta emperrada que precisa ser escorada por uma cadeira de rodas. Janelas sem telas de proteção permitem a entrada de insetos voadores que saem contaminados. Serrotes, facas, tesouras, pinças e bisturis sujos são deixados num armário enferrujado, aberto, com portas amassadas.

Falta de estrutura prejudica os trabalhos

A promessa da construção de um novo prédio do Centro de Perícias Forenses (CPFor), num terreno adquirido próximo ao Distrito Industrial, surge como a esperança de debelar tantas mazelas. A área de 31.500 m² seria dividida em três módulos (IML, Instituto de Criminalística e Instituto de Identificação). Os R$ 4 milhões para a execução do projeto já chegaram, mas ainda não se tem notícia da obra. Talvez comece ainda este ano.

Diante dessa expectativa, nada mais crucial do que expor os problemas da velha sede para sensibilizar a opinião pública e os poderes constituídos. A direção do IML aceitou o desafio proposto pela reportagem da Gazeta e teve a coragem de abrir todas as portas do órgão, de uma forma que nunca foi mostrada antes na imprensa alagoana. Acompanhado da assessoria de comunicação da Secretaria de Defesa Social, Gerson Odilon mostrou por que as siglas IML e CSI (Crime Scene Investigation, do seriado de TV americano) estão tão distantes.

Obra do novo IML deve iniciar este ano

O cartão de visitas do IML não é nada agradável. Quem já vive o drama de ter de ir ao local, toma o primeiro choque na recepção. Só há uma sala de atendimento, onde vítimas de estupro e de acidentes se deparam com bandidos algemados para fazer o exame de corpo de delito. Parentes de vítimas de assassinatos e mortes violentas também esperam no mesmo ambiente com crianças abusadas sexualmente, conselheiros tutelares, mulheres espancadas e policiais armados.

Vivendo a ansiedade de acabar com isso, o diretor do IML, Gerson Odilon, está discutindo com o Serviço de Engenharia do Estado de Alagoas (Serveal) as adaptações finais do projeto de construção do módulo do novo IML. De acordo com a Secretaria de Defesa Social (SDS), a obra será iniciada ainda este ano. Devem ser investidos R$ 2 milhões para a construção do prédio e outros R$ 2 milhões para o reaparelhamento dos três órgãos que compõem o CPFor: IML, Instituto de Criminalística (IC) e Instituto de Identificação.

Perícia médica é tema de palestra

O diretor do IML soube prender a atenção da plateia na palestra promovida pela Associação de Polícia (Apocal). Tanto por detalhar como a medicina legal pode ser útil nas investigações, como pelas orientações que passa aos agentes da lei para colaborar com o trabalho de perícia. Mas o ápice da apresentação acontece quando o legista começa a apontar a estrutura precária que fere a dignidade humana.
Mostrando os problemas em slides, ele aponta o sistema hidráulico falho, que até pouco tempo dispunha de caixas d’água no chão. “Um funcionário lavava uma lata de sangue e deixava a caixa suja, a mesma água era canalizada para as torneiras. Depois que descobriu o problema, um legista falou: ‘pôxa, quantas vezes escovei meus dentes com essa água?”, profere Gerson Odilon, diante do público estupefato.

Original em: http://gazetaweb.globo.com

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Insetos ajudam a desvendar homicídios

Pesquisadores de várias universidades tentam criar protocolos que facilitem uso da entomologia forense no cotidiano da polícia

– Vocês acharam o corpo em uma floresta?

– Não. Em um descampado.

– O homicídio não ocorreu lá. Tudo indica que foi dentro de uma mata fechada.

O biólogo José Roberto Pujol Luz, da Universidade de Brasília (UnB), fornecia uma informação importante para os peritos. Ele não precisou examinar o corpo. Bastaram algumas larvas obtidas do cadáver. Pujol pertence ao restrito grupo de brasileiros que se dedicam à entomologia forense – ciência dos insetos aplicada à solução de crimes.

Um assassino, no interior de Minas Gerais, arrancara dedos, dentes, olhos, orelhas e nariz do cadáver. Sem conseguir identificar a vítima, os policiais utilizaram a pista de Pujol para procurar o criminoso nas cidades vizinhas: as larvas pertenciam a espécies da mata e não havia florestas no município onde o corpo foi encontrado.

Post-mortem. “As larvas de moscas já têm 2 centímetros”, observa Watson. “Isso significa que a morte ocorreu há 10 ou 12 horas.” No filme Sherlock Holmes, de 2009, o amigo do famoso detetive exemplificou o principal uso da entomologia forense: a estimativa do intervalo decorrido entre a morte e a descoberta do corpo – uma variável conhecida como intervalo post-mortem.

“Os insetos funcionam como um cronômetro”, aponta Arício Linhares, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), considerado o iniciador da entomologia forense no País.

Graças ao seu aguçado olfato, as primeiras moscas chegam poucos minutos após a morte. Normalmente, depositam os ovos em locais protegidos, como os ouvidos, o nariz ou a boca. O tempo de desenvolvimento das larvas depende da espécie do inseto e da temperatura.

Depois de 72 horas, as previsões para intervalo post-mortem obtidas por critérios médico-legais se tornam muito imprecisas. É quando a entomologia forense surge como uma alternativa interessante.

Janyra Oliveira da Costa, do Instituto de Criminalística Carlos Éboli, no Rio, recorda quando foi chamada para periciar um homem enforcado. Apesar do rosto desfigurado, o corpo apresentava um estado incomum de conservação.

Confusos, os legistas apostavam em uma morte recente. Ao investigar os insetos, Janyra percebeu o erro. As larvas mais velhas, aquelas que os peritos criminais procuram em primeiro lugar, testemunhavam uma morte ocorrida há semanas.

Linhares lembra o caso de uma garota encontrada morta em um canavial no interior de São Paulo. O cadáver já não permitia uma estimativa precisa do momento do crime. O médico-legista arriscou que o crime havia acontecido no fim de semana anterior. O palpite inocentava o namorado da vítima, que possuía um álibi para o período.

A equipe da Unicamp contestou: os insetos mostravam que o crime ocorrera dias depois, durante a semana. “Devolvemos o namorado à cena do crime”, afirma o pesquisador. O rapaz acabou confessando o assassinato.

Linhares procura funções matemáticas que permitam, com base na espécie, na temperatura ambiente e no peso das larvas, determinar sua idade.

Pupas. Claudio Von Zuben, da Universidade do Estado de São Paulo (Unesp), em Rio Claro, também recorre à matemática para encontrar protocolos que facilitem a vida dos peritos.

No fim do período larval, os insetos costumam deixar o cadáver e procurar o solo, onde se enterram, transformando-se em pupas. Só depois emergem como formas adultas e aladas. As pupas são importantes para a perícia, pois costumam ser mais velhas que as larvas e, por isso, oferecem uma estimativa mais precisa do intervalo post-mortem.

“Não faz sentido o perito remover duas toneladas de terra para encontrar pupas”, aponta Von Zuben, que desenvolveu protocolos periciais para a tarefa de achar pupas com o mínimo esforço e o máximo resultado.

Alexandre Uruhary trabalhava no laboratório de Pujol, na UnB, quando foi chamado para auxiliar a perícia dos locais relacionados a um crime que chocou Brasília. “Chegando lá, vi que os insetos contavam uma história com muita clareza”, afirma Uruhary.

Policiais procuravam uma jovem desaparecida. Acompanhando de longe a investigação, o assassino percebeu que chegavam cada vez mais perto do corpo e resolveu escondê-lo em outro lugar. Uruhary não teve dúvidas ao ver um local repleto de pupas de moscas Chrysomya, as primeiras a colonizar o corpo: era o local do crime.

Tudo indicava que o assassino não havia conseguido realizar seu intento de transladar o cadáver e o deixou pelo caminho. Larvas de besouros, que só iniciam seu trabalho mais tarde, foram achadas onde o corpo havia sido deixado, possibilitando estimar quando o criminoso retornou ao local do crime para escondê-lo.

Precisão. Patrícia Thyssen, da Unicamp, resolveu associar a entomologia forense à biologia molecular. Análises genéticas das larvas facilitariam sua identificação, que não dependeria mais de um conhecimento tão específico quanto a taxonomia de larvas de insetos, mas de um protocolo preciso e relativamente fácil de reproduzir.

Além disso, as ferramentas moleculares permitiriam diferenciar geneticamente populações de uma mesma espécie, mas que habitam lugares diferentes. Dessa forma, seria possível estimar com mais precisão o local onde aconteceu o crime, muitas vezes diferente do local onde o corpo é encontrado.

As novas tecnologias também transformam os insetos em verdadeiros registros químicos de como estava o organismo de uma pessoa no momento da sua morte. Substâncias que desapareceriam sem deixar rasto com a decomposição do corpo são preservadas nos insetos.

“É possível descobrir se a vítima de um crime usou algum tipo de droga: de cocaína a remédio para pressão”, aponta Linhares. Basta analisar quimicamente as larvas ou as pupas.

Alexandre Gonçalves – O Estado de S.Paulo

Original em: http://www.estadao.com.br

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Perita do TO treinada pelo FBI se destaca em outros estados

Genética Forense e Crimes Sexuais. Esse é o tema de uma palestra que a Perita tocantinense, Patrícia Bonilha de Toledo Piza ministra neste domingo, 10, no XII Congresso Brasileiro de Biomedicina, em Recife. O evento acontece no Centro de Convenções de Pernambuco até dia 12. O público-alvo é composto por técnicos da área da saúde, como médicos, biomédicos e acadêmicos dessas áreas interessados em conhecer as metodologias e ferramentas disponíveis para se analisar geneticamente, amostras biológicas vinculadas aos crimes sexuais envolvendo vítimas de ambos os sexos e de idades variadas.

Para o superintendente da Polícia Técnico-Científica do Estado, José Ivan Farias de Oliveira, a perícia tocantinense vive um momento ímpar. “Nunca os profissionais da criminalística tiveram um reconhecimento tão grande pelo excelente trabalho que executam”. Para José Ivan, os convites que peritos tocantinenses vêm recebendo para proferir palestras em outros estados, é fruto do reconhecimento ao êxito do trabalho silencioso desenvolvido pelos peritos tocantinenses, que em grande parte, buscam melhor qualificação com recursos próprios.

Especialista em Genética Forense e em Saúde Pública e mestrando em Genética Humana, a perita Patrícia Bonilha já tem agendada para novembro, uma nova palestra. Desta vez, a convite do Estado do Piauí, ela vai participar do I Congresso Interdisciplinar da Faculdade Aliança, cujo tema será: Biologia Molecular – A narrativa de um crime sob o enfoque pericial. O tema é semelhante ao que, há pouco tempo, a perita criminal proferiu no Congresso Brasileiro de Biomedicina, em Belém, no Pará.

Além de perita criminal, chefe do Laboratório de Genética Forense do Estado (DNA), Patrícia Bonilha de Toledo Pizza tem curso ministrado pelo FBI sobre Administração de Bancos de Dados de Perfis Genético (Codis), é professora universitária na área de Biomedicina, Genética Humana e Gestão de Controle de Qualidade em Análises Clínicas.

Outro destaque
No mês de setembro o perito criminal também do Tocantins, Sebastião dos Reis Xandó, que foi convidado pela Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP) e pela Associação Brasileira de Criminalística (ABC), ministrou palestra no III Seminário Nacional de DNA e Laboratórios Forenses realizado na UNB em Brasília. O tema foi “Os Novos Rumos da Metrologia Aplicados à Toxicologia e Química Forense”. (Por Gilvan Nolêto)

Original em: http://www.ogirassol.com.br

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