SP: peritos iniciam escavações em possível vala comum da ditadura

 

Trabalho de escavação vai se estender durante a semana e conta com a ajuda de funcionários da Prefeitura

Começou na manhã desta segunda-feira (29) a escavação no cemitério Vila Formosa, na zona leste de São Paulo, para a identificação de uma vala comum que pode ter sido usada como cemitério clandestino de desaparecidos políticos durante a ditadura militar. Os trabalhos de representantes do Ministério Público Federal em São Paulo (MPF-SP) e da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) – ligada à Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, do Instituto Nacional de Criminalística do Departamento de Polícia Federal e do Instituto Médico Legal do Estado de São Paulo – devem prosseguir por toda a semana.

 

Uma análise realizada com base nos dados preliminares coletados com a ajuda de um radar de penetração no solo (GPR), desde o dia 8 de novembro, conseguiu identificar uma câmara subterrânea com paredes de concreto no local. Segundo os procuradores-gerais da República, Eugênia Gonzaga e Marlon Alberto Weichert, os primeiros trabalhos serão para confirmar a existência da vala e só depois, se for encontrada alguma ossada, será feita a exumação e tentativa de identificação dos restos mortais de pelo menos dez desaparecidos políticos.

“Por mais que seja difícil esse trabalho, já é um avanço. É possível pelo menos para que se faça o memorial e que seja registrado que este aqui é o local onde estão repousando essas pessoas”, disse a procuradora Eugênia Gonzaga.

Primeiro desaparecido político
Outra frente do trabalho se concentrará na busca do corpo de Virgílio Gomes da Silva, conhecido como Jonas. Ele era militante da Aliança Libertadora Nacional (ALN) e teria sido torturado e morto após participar da operação que sequestrou o embaixador americano Charles Burke Elbrick, em setembro de 1969. Não há registros oficiais sobre a morte de Virgílio, considerado o primeiro desaparecido político brasileiro.

Para a viúva do militante, Ilda Martins da Silva, 79 anos, que acompanhou o início dos trabalhos dos peritos na manhã desta segunda-feira (29), a construção de um memorial já seria um sinal de reconhecimento oficial. “Mesmo que a gente não localize os ossos, nossa expectativa é que seja construído o memorial. Será importante para todas as famílias dos desaparecidos políticos”, disse Ilda. “Consolo a gente nunca vai ter. O que a gente quer é um lugar para levar uma flor, para fazer uma homenagem”.

O trabalho de escavação deve se estender até a próxima sexta-feira (3) e conta com a ajuda de funcionários da prefeitura. Nesta segunda-feira, as escavações devem seguir até às 17h. Na terça-feira (30), as atividades serão retomadas por volta das 9h no mesmo local.

Histórico
Segundo a Procuradoria Geral da República, mais de 450 pessoas foram mortas ou desapareceram durante o período do último regime militar no Brasil (1964-1985). Até a construção do Cemitério de Perus, os cadáveres dos militantes políticos eram enterrados em outros cemitérios públicos, sendo o mais conhecido o da Vila Formosa, na zona leste da capital paulista.

A Comissão Parlamentar de Inquérito da Câmara Municipal de São Paulo, instituída após a abertura da vala do Cemitério de Perus, em 1990, apurou que o Cemitério da Vila Formosa também passou por um processo de descaracterização, em 1975, na mesma época em que foram concluídas as ações de ocultação de cadáveres em Perus (exumações em massa e transferência para vala comum). Tais alterações foram realizadas sem projeto formal de reforma, registro ou cautela em preservar a possibilidade de futura localização de sepulturas.

Original em: http://noticias.terra.com.br

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