Cientista criminalístico contesta versão da polícia de troca de tiros na morte de jovens em Mogi das Cruzes

  Nesta sexta-feira (9), completa um ano que jovens de classe média alta suspeitos de assaltar postos de combustíveis em Mogi das Cruzes acabaram mortos por policiais do Deic da capital.

A polícia disse que houve troca de tiros. Mas a família de um desses jovens contratou um especialista para demonstrar que houve uma execução.

O cientista criminalístico Sérgio Hernández contesta a versão da polícia sobre uma suposta troca de tiros entre os suspeitos e os policiais.

Ele afirma que os suspeitos de assaltar vários postos de combustíveis em Mogi das Cruzes na noite do dia 9 de março do ano passado foram executados. “O ponto principal é que não houve troca de tiros”, diz Hernández.

De acordo com a versão da polícia, por volta das 20h45, homens armados abordaram um frentista em um posto de combustíveis no bairro da Ponte Grande e levaram R$ 317.

Mas eles não perceberam que no momento do assalto tinha polícia por perto. Eram policiais civis do Deic da Capital que estavam dentro da loja de conveniência e foram avisados do roubo.

Houve perseguição, e nas imagens de uma câmera de monitoramento de uma empresa dá para ver quando o carro dos suspeitos entra de marcha a ré em alta velocidade, bate e arrasta uma caçamba.

Depois outro carro aparece, e no fim outro policial surge na calçada e atira contra o carro que acelera, e tenta escapar.

Logo após esse momento, segundo o boletim policial, houve troca de tiros. O carro vermelho onde os suspeitos estavam ficou bastante destruído e três dos quatro suspeitos morreram: Rogério de Oliveira Filho, de 17 anos, Matheus Wilson da Costa Reis e Vitor Gomes Andrade Tito, ambos de 19 anos. Apenas Vitor Saldanha de 19 anos sobreviveu. No entanto, ele ficou vários dias internado no Hospital Luzia de Pinho Melo em estado grave.

Segundo a polícia, com eles foram encontrados dinheiro, duas armas e 4 gramas de maconha. Os jovens também são suspeitos de assaltar outros dois postos de combustíveis na mesma noite. A ação deles também foi gravada pelas câmeras de monitoramento.

Mas os pais de Matheus Wilson da Costa Reis nunca acreditaram na versão da polícia. Eles contrataram Sérgio Hernández para uma perícia particular.

Para o perito, os três rapazes não atiraram contra os policiais, eles foram executados. Hernández afirma que são várias as possíveis contradições da versão policial.

Uma delas é que não há evidências de tiros que saíram do carro e sim o contrário. O próprio laudo do Instituto de Criminalística (IC) aponta “resultado negativo” para vestígios de pólvora nas mãos dos três que morreram.

Na animação por computador feita pela perícia particular, Victor Andrade Gomes Tito está sentado no banco de trás do carro no lado direito.

Reconstituição feito por perito particular mostra jovem teria sido executado por policial civil em Mogi das Cruzes (Foto: Reprodução/TV Diário)

Reconstituição feito por perito particular mostra jovem teria sido executado por policial civil em Mogi das Cruzes (Foto: Reprodução/TV Diário)

Para o perito, o policial fez os disparos à curta distância, e com a porta do carro aberta. A prova seria o que os especialistas chamam de “tatuagem”, uma mancha escura de pólvora que envolve a entrada da bala no corpo da pessoa.

O cientista afirma que essa marca só aparece quando o tiro foi realizado a uma distância de até 50 centímetros, e essa seria uma evidência de execução. “Se tivesse troca de tiros essa tatuagem não existiria. Essa prova foi gerada pelo laudo cadavérico feito por um perito legista oficial onde consta que dos tiros nessa vítima apresentava tatuagem”, destaca Hernández.

No outro trecho da animação é Matheus que está na direção do carro. Segundo o perito, ele teria sido atingido pelo mesmo policial que atirou em Vitor.

Segundo o laudo prévio do IC, no total Matheus levou seis tiros em diversas partes do corpo e na nuca. “Levou um tiro na nuca que será confirmado na exumação e o carro na parte traseira não tem marcas de passagem de projétil. Isso é mais um indício que os tiros foram efetuados com as portas abertas.”

A família de Matheus não quis gravar entrevista, mas autorizou o advogado a falar sobre os próximos passos. “A gente pode verificar que existem divergências sobre o tiro fatal,a quantidade de tiros, a quantidade de cápsulas. São muitas divergências”, ressalta o advogado Ronaldo Mazza.

A Polícia Civil de Mogi das Cruzes informou que o inquérito policial está em andamento pelo Setor de Homicídios da Seccional.

Segundo a polícia, o sobrevivente foi ouvido e está preso no CDP de Mogi. Ainda de acordo com a polícia, a Corregedoria da Polícia Civil abriu um procedimento administrativo, em trâmite pelo núcleo corregedor de Mogi e que os policiais envolvidos na ação permanecem em suas atividades.

Original em: https://g1.globo.com

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